As ciências humanas e sociais contra o senso comum

É revoltante e profundamente entristecedor notar como o senso comum coloca as Ciências Humanas e Sociais tais quais um mecanismo de doutrinação a serviço de uma suposta ideologia. Ainda que esta realidade demonstre empiricamente a centralidade do estudo sobre as humanidades na atual conjuntura de crise econômica, política e representativa, uma vez que há uma sensível atuação de setores conservadores da sociedade na negação destas áreas do conhecimento, tal valorização – se é que podemos chamar assim – não compensa a inegável dureza e efetividade de seus golpes.

Sob tal análise obscurantista, por exemplo, a obra magna de Sérgio Buarque de Holanda deixa de adotar uma linha liberal democrática e assume-se marxista; a produção de Paulo Freire tem seu viés libertador alterado para tornar-se a propagação do ideário de Simon Bolívar; as aulas na Sorbonne e o Vautrin Lud – considerado o Nobel da Geografia – de Milton Santos deixam de ser valorização internacional para consistir em plena manipulação comunista; até a Lilia Schwarcz abandona seu acúmulo sobre o Brasil Colônia e as consequências da escravidão para ser mera incitação à luta de classes, ao conflito social e, consequentemente, fomentar discussões radicais de esquerda no Facebook.

Este tipo de ode à ignorância, cada vez mais comum nas redes e nas ruas, também grita a urgência de uma séria mobilização. É preciso resistir pela manutenção das disciplinas de Sociologia e de Filosofia no currículo escolar básico; reconhecer e fortalecer as disciplinas de História e de Geografia, principalmente diante da supervalorização mercadológica das Ciências Exatas; combater as cruéis iniciativas que impõem e naturalizam a educação não enquanto direito fundamental, mas como mercadoria; lutar por uma educação que propague a autonomia do indivíduo, o senso de coletividade e a transformação da realidade; dentre tantas outras importantes iniciativas.

Não obstante, é fundamental que se dê início a um profundo giro cosmológico na geração e na propagação do conhecimento, de modo que se visibilize a profunda contribuição das Ciências Humanas e Sociais ao mundo; que se abra mão dos privilégios e se rompa com toda e qualquer lógica academicista e excludente; e, por fim, que se derrube em definitivo os muros que há tanto separam o conhecimento e o povo. Como bem disse Paulo Freire, ainda que a responsabilidade pela transformação da nossa dura realidade não esteja apenas sobre os franzinos braços da educação, sem eles tampouco será possível.

Se a crise da educação no Brasil não é uma crise, mas sim um projeto, assim também o é a crescente propagação do senso comum em detrimento literal do conhecimento. Pois que se faça a luz perante as trevas e a antítese diante do inconciliável, isto é, o projeto de uma outra educação possível onde caibam outras tantas realidades possíveis. Assim, assumindo o essencial papel de referência em contraposição ao autoritarismo típico do senso comum, sejamos na prática autores da nossa própria história e críticos da nossa própria realidade.

“Se, na verdade, não estou no mundo para simplesmente a ele me adaptar, mas para transformá-lo; se não é possível mudá-lo sem um certo sonho ou projeto de mundo, devo usar toda possibilidade que tenha para não apenas falar de minha utopia, mas participar de práticas com ela coerentes.” (Paulo Freire)

Defenda e propague o conhecimento!

Valorize as Ciências Humanas e Sociais!

Texto originalmente publicado em 2017.

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Rennan Cantuaria

Sociólogo pela UFRJ, especializando em literatura pelo IFRJ, assessor de planejamento e professor.