Chacina da Chatuba: Mais uma caminhada

Caminhando para a concentração de mais um ato pela paz, provocado pela violência torpe e banal. O desconforto provocado não é somente de prever que na frente, mais uma vez, verei a perplexidade, o medo e a tristeza estampada nos rostos das pessoas. As lágrimas nos olhos de amigos e vizinhos. Novamente o desespero de mães, pais, irmãos. Mais uma vez os gritos por justiça, misturados aos de “quero meu filho”, “quero meu irmão”.

Aproximando-me da multidão que se concentra, penso alto: “Deus! Mais uma caminhada!”.

O conflito de sentimentos coloca em dúvida convicções e a fé.

Ao encontrar com aqueles que tiveram ceifados de suas vidas os que amavam. Arrancados um pedaço do motivo de suas existências. O que falar desta vez? De que forma abraçar? Como acalentar esperanças?

Lembro da letra da banda Dorsal Atlântida: “Quase desisto, mas quando olho para traz”… quando olho para os lados e finalmente para frente. A me ver junto com tantas outras pessoas que também estão dispostas a gastar suas existências pela incondicional defesa da vida, cada um a sua forma, seja pela religião, pelo trabalho, ou por compromissos que inexplicavelmente assumidos. Força-me a pensar, a buscar saídas antes do final de mais aquela caminhada. Pois deixar se abater é legitimar a barbárie.

Então, renovo a coragem para enfrentar…

As idéias para a consolidação de uma sociedade com mais cultura de direitos não inéditas. Mas as formas que as violências são perpetradas também não são.

Primeiro desconstruir preconceitos para construir a cultura de não-violência ativa.

Tendo o jovem como principal beneficiário das ações de prevenção, e como foco, sua autoestima. Saciando-lhe a fome de reconhecimento, através do acolhimento e valorização. Elaborando maneiras de transformar círculos viciosos em círculos virtuosos. Mas para isso teremos que ir buscar em cada território, de forma efetiva e eficiente, maneiras de disputar jovem a jovem com o crime.

Sigo caminhando e olho para as placas das eleições municipais de 2012. Não identifico em nenhuma linha político-ideológica que coloque as prefeituras solidárias a construção de uma verdadeira cultura de paz através da implementação de políticas de segurança pública. Como não? O município é a esfera mais apropriada às políticas de prevenção das violências. Sim, a segurança pública, é dever do Estado, mas direito e responsabilidade de todos. Logo, atribuir somente às polícias é omitir-se de maneira dolosa, para na próxima tragédia, responsabilizar… as polícias.

É certo que a paz não é espontâneo, preciso ser construída.

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Adriano Dias

Jornalista militante e fundador da #ComCausa