Manuel Congo e Marianna Crioula presos

Em Paty de Alferes um grito de liberdade, dos mais importantes levantes de negros do Rio de Janeiro, liderados pelos lendários Manoel Congo e Marianna Crioula.

A ação balançou os alicerces do regime escravocrata fluminense nas terras do café. As portas das senzalas da Fazenda Freguesia foram arrombadas para libertar os escravos. Era o início de uma saga que fez Manoel Congo e Marianna Crioula entrarem para a história. O grupo, liderado também por Pedro Dias, Vicente Moçambique, Antônio Magro e Justino Benguela, invadiu, em seguida, a Fazenda da Maravilha. A eles se somariam cerca de 400 escravos fugindo nas matas da Serra da Estrela, a caminho da Serra da Taquara. Ali foram interceptados, com a ajuda de 160 homens da Guarda Nacional, pelo Capitão-Mor de Ordenanças, Manoel Francisco Xavier, proprietário das duas fazendas e de todos os escravos fugitivos.

A luta feroz que se seguiu resultou na morte de muitos negros e dois soldados e na prisão dos que restaram. Nos autos, o coronel da Guarda Nacional retratou no processo que Mariana, à frente da guerra e dos seus irmãos, foi relutante em se render e gritava em alto e bom som: “ Morrer sim, se entregar jamais!”

Foi em 12 de novembro de 1838, uma semana após a construção do quilombo, que Manuel Congo e Marianna Crioula foram presos.

Manoel Congo recebeu pena de morte por enforcamento. Os demais escravos homens receberiam 650 chicotadas cada um, além da obrigação de usarem gonzos no pescoço durante 3 anos.

Somente 49 anos depois, essa luta – que contou com a participação de muitos personagens em todo o país -, alcançaria o seu principal objetivo, com a assinatura da Lei Áurea em 13 de maio de 1888.

Mas esta é umas uma data simbólica para jamais esquecermos este triste capítulo de nossa história e seguirmos na luta por liberdade e justiça para todos! 

A Região de Vassouras em 1838

Em 1838, o centro da economia nacional passava a ser a região sul fluminense, na qual ocorria um intenso desmatamento de terras e introdução do cultivo do café. Cerca de 70% do café exportado pelo Brasil naquela data era colhido nas terras da Vila de Vassouras que incluíam este atual município, mais os de Mendes, Paty do Alferes, Miguel Pereira e parte de Paracambi. As plantações de café também se expandiam pelos municípios vizinhos de Valença e Paraíba do Sul e já eram o principal sustentáculo econômico do Império do Brasil. Paty do Alferes era a mais rica das freguesias de Vassouras e o local original de colonização da região, já que era o caminho mais antigo entre o porto do Rio de Janeiro e as Minas Gerais.

O intenso crescimento econômico da região causava uma grande necessidade de mão de obra escrava que era comprada em outros Estados ou importada da África. Esta foi a época em que o Brasil mais importou escravos da África.

A população da então vila de Vassouras crescia rapidamente com a expansão da lavoura do café, mas a população de escravos era bem superior a de pessoas livres, brancas ou não. Em 1840, Vassouras tinha 20 589 habitantes, dos quais 6 225 livres e 14 333 escravos. Por volta de 1850, a população atingiu 35 000 pessoas (a mesma população do município atual, embora numa área bem menor).

A maior parte dos escravos era constituída por homens jovens nascidos na África. Segundo dados de 1837-1840, cerca de 75% dos escravos da região eram africanos, 68% tinha idade na faixa entre 15 e 40 anos, 73,7% eram homens. Os escravos homens e jovens eram os preferidos pois a maior parte do trabalho consistia em derrubar matas, plantar e capinar, o que requeria grande vigor físico. Entretanto, os escravos africanos eram temidos pela rebeldia ou pouco apreciados por não conheceram ainda a língua, os costumes e a religião da terra.

A Revolta dos Malês ocorrida na Bahia em 1835 espalhou o medo de novas revoltas por todo o Império. Denúncias e boatos de revoltas eram comuns em todo lugar onde havia muitos escravos. Os “pretos minas”, nascidos na costa ocidental da África, eram especialmente temidos por seu envolvimento na Revolta dos Malês.

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João Oscar

João Oscar é militante de direitos humanos da Baixada e jornalista comunitário.