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Memória: Nascimento do Marinheiro João Cândido o Almirante Negro

João Cândido Felisberto, popularmente conhecido como Marinheiro João Cândido ou Almirante Negro, foi um oficial da marinha brasileira e líder da Revolta da Chibata em 1910. A Revolta da Chibata foi uma revolta entre os militares da marinha brasileira que foram submetidos a duras punições, inclusive açoitamento com chicote, por parte de seus superiores.

João Cândido nasceu em 24 de junho de 1880, na Encruzilhada do Sul, Rio Grande do Sul, Brasil. Ele ingressou na Marinha do Brasil e serviu como marinheiro em vários navios de guerra, testemunhando em primeira mão a disciplina brutal e os maus tratos dos homens alistados. As duras punições, principalmente as chicotadas, o levaram a liderar uma revolta contra a Marinha em novembro de 1910.

O uso da chibata como castigo na Marinha brasileira já havia sido abolido em um dos primeiros atos do regime republicano, o decreto número 3, de 16 de novembro de 1889, assinado pelo presidente marechal Deodoro da Fonseca. Todavia, o castigo cruel continuava de fato a ser aplicado, a critério dos oficiais da Marinha de Guerra do Brasil. Num contingente de 90% de negros e mulatos, centenas de marujos continuavam a ter seus corpos retalhados pela chibata, como no tempo da escravidão. Entre os marinheiros, insatisfeitos com os baixos soldos, com a má alimentação e, principalmente, com os degradantes castigos corporais, crescia o clima de tensão.

Até que menos de uma semana após a posse do marechal Hermes da Fonseca, o marinheiro Marcelino Rodrigues de Menezes foi punido a 21 de novembro com 250 chibatadas, aplicadas na presença de toda a tripulação do Encouraçado Minas Gerais, na capitânia da nova Esquadra, e que não se interromperam nem mesmo com o seu desfalecimento, conforme noticiado pelos jornais da época. Este fato antecipou a data programada de 25 para 22 de novembro de 1910.

Seria na noite deste dia porque o comandante do navio Minas Gerais, o Capitão João Batista das Neves dormiria fora do navio, e então os marujos tomariam posse das armas, dominariam os oficiais em seus camarotes, e teriam o controle do navio mãe e depois de todos os demais que estavam na Bahia da Guanabara. Entretanto o comandante Batista das Neves voltou mais cedo do que eles esperavam, e um marinheiro mais descontrolado partiu para cima do oficial de serviço, pois não queria mais o adiamento da revolta. O comandante ouve os barulhos, assim como os outros oficiais e todos vêm para o convés.

Mesmo aconselhado pelo marinheiro Bulhões a se abrigar, Batista das Neves diz que não sairia de bordo do navio, insistindo em tentar fazer os marinheiros formarem e obedecerem às suas ordens. Os marinheiros, já muito exaltados, ao ver que o comandante feriu um dos marinheiros, começam a jogar objetos nele, e por fim um marinheiro dá-lhe um tiro na cabeça.

Morrem no Minas Gerais, além do comandante, mais dois oficiais e três marinheiros (da patente de sargento para baixo, na simplificação usual). Durante os combates, morrem mais um oficial e um marinheiro no navio Bahia, sob responsabilidade do marinheiro Francisco Martins, e um oficial no navio São Paulo, sob responsabilidade do marinheiro Manoel Nascimento. Terminado o confronto, e diante da gravidade da situação, com a morte do comandante e outros oficiais, João Cândido, que havia participado das reuniões conspiratórias, cujo chefe era Vitalino José Ferreira, é indicado pelos demais líderes como o comandante-em-chefe de toda a esquadra revoltada, inicialmente composta por seis navios, e depois concentrando as guarnições em quatro, entre eles os dois encouraçados fabricados na Inglaterra, considerados os mais potentes do mundo à época: Minas Gerais e São Paulo.

Sob a liderança de João Cândido, a revolta começou no cruzador blindado Minas Gerais, ancorado na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. Os amotinados assumiram o controle do navio e exigiam o fim do uso de castigos corporais na Marinha. Eles também pediram melhores condições de vida, melhor alimentação e anistia para os envolvidos na revolta.

A revolta estendeu-se a outros navios e a liderança de João Cândido ganhou o apoio de marinheiros e civis. O governo brasileiro foi obrigado a negociar com os amotinados e, no final, suas demandas foram atendidas. A prática da flagelação foi abolida e algumas melhorias foram feitas nas condições de trabalho e vida dos marinheiros.

Apesar do sucesso inicial da revolta, João Cândido e outros líderes do movimento enfrentaram perseguições e foram posteriormente presos. João Cândido foi acusado de motim e passou vários anos na prisão. Após sua libertação, ele lutou para encontrar um emprego e viveu na pobreza durante grande parte de sua vida.

Nos anos posteriores, o reconhecimento do papel de João Cândido na Revolta da Chibata cresceu, e ele se tornou um símbolo de resistência contra a injustiça no Brasil. Em 2008, mais de 90 anos após a revolta, o governo brasileiro reconheceu oficialmente o papel de João Cândido e concedeu-lhe a promoção póstuma ao posto de tenente.

Discriminado e perseguido pela Marinha até o final da vida, recolheu-se no município de São João de Meriti, onde aproximou-se da Igreja Metodista. Passou mal em casa e foi levado ao Hospital Getúlio Vargas, na capital do Rio de Janeiro, onde morreu em 6 de dezembro de 1969, aos 89 anos, vítima de câncer. Seu legado permanece significativo, pois é lembrado como um líder corajoso que lutou pelos direitos dos marinheiros alistados e contribuiu para a abolição dos castigos corporais na Marinha do Brasil.

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João Oscar

João Oscar é jornalista militante de direitos humanos da Baixada e colaborador da ComCausa