A maior chacina do Rio de Janeiro

0
2

Por volta das 21 horas recebi o primeiro, de muitos, telefonema de um morador de Nova Iguaçu contando que “um monte de gente tinha sido morta” e que era para não vir para o do bairro da Posse, pois os vizinhos estavam ligando entre si avisando sobre o perigo. Os programas jornalísticos da noite do dia 31 de março passaram a noticiar que havia acontecido mais uma chacina na Baixada, um sentimento de incapacidade me bateu forte quando vi Dom Luciano, o Bispo de Nova Iguaçu, passar rapidamente em uma reportagem rezando ao lado dos corpos. Mas somente percebi proporção da tragédia no dia seguinte quando voltei para a região.

Antes de chegar, as seguidas ligações telefônicas relatavam um quadro inimaginável, que ficou comprovado nas capas dos jornais – edições especiais – expostas nas bancas. Posteriormente jornalistas relataram que as redações, literalmente “pararam as máquinas”: aconteceu a maior chacina da história do estado do Rio de Janeiro.

A desorientação diante do episódio era nítida na perplexidade de parentes, vizinhos e das autoridades. Nos locais onde aconteceram as mortes, a população externava o medo que se traduzia em agressividade. A chacina alvejou também a possibilidade do exercício da cidadania e da solidariedade. Entender, e talvez ajudar o próximo, parecia ter se tornado um risco à vida, ou, ao menos esse parecia ser o desenho do imaginário coletivo.

Nova Iguaçu e Queimados tornaram-se o centro das notícias no mundo e as ruas da Baixada aparecerem no noticiário da CNN, no site do New York Times; nas agências Reuters e Associated Press, no jornal canadense The Globe And Mail, no espanhol El Pais, entre outros. Em um dos enterros, em Austin, conversei com uma equipe da TV NHK, uma das mais importantes emissoras do Japão. Não resta dúvida que a visibilidade contribuiu para as primeiras prisões de suspeitos e anuncio por parte das autoridades de políticas públicas para a população direta e indiretamente atingida. Tal exposição, somente diminuiu com morte do Papa, dias depois.

O saldo desta repercussão parecia ser também a garantia de que haveria justiça e que aqueles que perderam parentes e amigos teriam todo o apoio necessário. Entretanto, nas semanas seguintes ao episódio, representantes do poder público fizeram uma rápida visita aos locais das mortes. Só que a principal prioridade parecia ser demonstrar, através da mídia, uma grande “sensibilização” política com o sofrimento dos familiares. Mas, passados os flashes, faltou quem orientassem algumas daquelas pessoas para o encaminhamento de questões práticas como acesso à justiça e apoio psicológico.

Diante disto me dispus então levá-las até onde pudessem ter apoio: o Centro de Direitos Humanos da Diocese de Nova Iguaçu, que teve papel importantíssimo no acolhida destas vítimas; e que, na época também sediava uma equipe da então Secretária Estadual de Direitos Humanos.

A iniciativa de levar alguns dos familiares, que continuavam perdidas em sua dor, aos locais que pudessem obter auxílio, com a devida discrição que a situação requeria, se repetiu algumas vezes. Em vários momentos, por conta da desconfiança comum nessas circunstâncias, contou-se com a ajuda do Padre Paulo da Igreja da Posse, que posteriormente também foi assassinado.

Passada a confusão dos primeiros dias e sob o olhar de vários movimentos estas pessoas foram gradualmente conseguindo o apoio necessário por parte do poder público. Logo depois, motivados pela dimensão da tragédia, centenas de instituições e pessoas formaram o Fórum Reage Baixada e celebram o “Dossiê contra a impunidade”, que fez um diagnóstico da violência e elencou uma série de propostas.

No episódio da “chacina da Baixada” ficou claro que alguns parentes e amigos das vítimas, devido a suas condições socioeconômicas, do desconhecimento dos seus direitos, de onde e como acessá-los, veem-se imobilizados. Isto acontece quase sempre com os mais necessitados. Por outro lado, externou a falta de políticas sistêmicas para tratar integralmente àqueles que foram atingidos pela violência.

A perda do ente querido de forma violenta provoca diferentes reações por parte de amigos e parentes. Alguns se isolam do convívio social, outros vão a público e se tornam ativistas por justiça. Mas, em quase todas as situações, desenvolvem graves problemas psicológicos ou somatizam fisicamente em várias doenças.

Percebeu-se também a tendência da própria comunidade em se afastam destes amigos e familiares de vítimas da violência, não – somente – por medo, ou insensibilidade, mas a maioria não sabe como lidar diante desta situação em razão do difícil convívio com a constante necessidade da exteriorização da dor e dos traumas destas pessoas. Além disso, observa-se uma inclinação geral à banalização da violência e a culpabilização das vítimas por parte da sociedade. Que geralmente questionam a possível existência de vinculo da vítima com atos ilegais ou fora dos padrões morais convencionais.

No decorrer destes doze anos, contribui para a criação de programas de apoio a vítimas das violências, mas, para além desses, aprendi a importantíssima disposição de se colocar ao lado destas pessoas nestes momentos. É imprescindível políticas para se tratar do tema, mas extremamente relevante a sociedade – principalmente a imprensa – tratar com mais sensibilidade as vítimas indiretas da violência.

| Adriano Dias – fundador da ComCausa.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui