Vaquinha para desapropriar um símbolo da ditadura

A grande casa localizada no bairro Caxambu, em Petrópolis, região serrana do Rio, tem um passado pesado. Naquele imóvel, pelo menos 22 pessoas foram torturadas, estupradas e mortas por agentes do Estado, o motivo era simples: eles se opuseram à ditadura militar instalada no Brasil em 1964. Por isso, esta é conhecida como a Casa da Morte. De todas as vítimas que lá estiveram, apenas uma sobreviveu: Inês Etienne Romeu, presa por participar da organização armada Var-Palmares. Antes de sair, ela sofreu torturas de todo tipo.

Anos depois, Inês ajudou a encontrar a casa da morte e também identificou alguns de seus torturadores. Ela morreu em 2015. Contrariando a ideia de que os horrores da Casa da Morte devem ser esquecidos, um grupo quer manter bem viva a memória das atrocidades praticadas naquele local. O lema do grupo é ‘nenhuma cumplicidade com a amnésia histórica'”, diz a jornalista Márcia de Almeida, coordenadora do Grupo Inês Etienne Romeu, que tem o objetivo de recolher a quantia necessária para efetivar a desapropriação e transformar o imóvel em um Centro de Memória.

Para ela, essa é uma forma eficaz de a sociedade lembrar que, além de cercear direitos e impedir o livre funcionamento das instituições, a ditadura militar patrocinava práticas criminosas e covardes como as sofridas por Inês.

O decreto de desapropriação da Casa da Morte foi assinado em novembro de 2019 pelo prefeito de Petrópolis, mas sem destinação de recursos para ressarcimento dos donos do imóvel. É esse dinheiro que o grupo agora pretende arrecadar, através de uma campanha de doações.

A iniciativa iria começar no ano passado, mas a pandemia forçou que fosse adiada. Agora, mesmo com a crise do coronavírus ainda fora de controle, será retomada. Além das doações de brasileiros que se interessem pela causa, um pedido de ajuda financeira será encaminhado a Michelle Bachelet, responsável pela Comissão dos Direitos Humanos da ONU. A jornalista se tornou amiga de Inês Etienne Romeu depois de entrevistá-la. Conviveu com ela até sua morte e hoje dedica quase todo o seu tempo a tentar transformar em realidade o Centro de Memória.

A ideia é que as novas gerações saibam das atrocidades que foram cometidas ali, reveladas graças à coragem e à inteligência de Inês. Ela acabou libertada depois de fazer os torturadores acreditarem que poderia atuar como colaboradora infiltrada em grupos de esquerda. Foi presa depois, mas com seu paradeiro conhecido publicamente, não foi mais torturada.

Ao sair da prisão, localizou a Casa da Morte com a ajuda do jornalista Antonio Henrique Lago. A partir daí, além do endereço foram revelados muitos crimes cometidos. Algo entre 22 e 40 militantes políticos foram torturados, estuprados e mortos naquela casa. Os corpos foram esquartejados e depois incinerados.

Os crimes cometidos naquele lugar serão abordados em livro que está sendo finalizado pela jornalista Juliana Dal Piva, colunista do UOL. Ela pretende mostrar como a cúpula da ditadura militar montou o local clandestino para torturar e matar presos políticos. “A história da Casa da Morte comprova como, além de quem servia lá, os generais também foram diretamente responsáveis por crimes horríveis”, explica Juliana. “Se alguém achava ainda que foi coisa de um grupo, sem conhecimento da cúpula do governo e do Exército, o livro vai mostrar que não”.

Tudo o que se sabe sobre o que aconteceu ali é consequência da determinação de Inês. A criação do Centro de Memória serviria como referência do local que se tornou tristemente histórico. “Se morrer depois que atingir esse objetivo, está de bom tamanho”, diz Márcia de Almeida. Seja como for, os agentes da ditadura que torturaram e mataram suas vítimas naquele local, acreditando que nunca seriam expostos aos brasileiros, não conseguiram seu objetivo.

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Thauan Mendes

Graduado em letras, professor de inglês, jornalista social da ComCausa.