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Memória: Geraldo Lima Padre das causas do povo

Padre Geraldo Lima, faleceu no dia 07 de julho de 2018 aos 80 anos. Ele trabalhou por muitos anos na Diocese de Nova Iguaçu, mas foi ordenado no dia 20 de junho de 1964 em Petrópolis.

Na Diocese de Petrópolis, antes de ir para Nova Iguaçu, Padre Geraldo Lima realizou trabalhou como diácono e sacerdote na Paróquia Nossa Senhora da Conceição em Bemposta, Paróquia Nossa Senhora do Rosário em Petrópolis, Catedral São Pedro de Alcântara e na Paróquia São Nicolau em Suruí.

Sua trajetória está ligada a luta da Comissão Pastoral da Terra (CPT), do Movimento dos Sem Terra (MST), onde atuou a vida inteira lutando por “Terra, Teto e Trabalho” para quem não tinha, participou de Movimentos interreligiosos e ecumênicos, foi um dos fundadores da Associação de Presbíteros Diocesana e Nacional e da Fraternidade dos Padres Charles de Foucauld, durante anos ajudou na Economia Solidária, Bio energética, Rádios Comunitárias, e outros na Baixada Fluminense do Estado do Rio de Janeiro e do Brasil.

Padre Geraldo deu seu depoimento em audiência pública para a Comissão Nacional da Verdade (CNV) e a Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro (CEV/RJ) sobre o “Papel das Igrejas durante a Ditadura”, no auditório da CAARJ, no centro do Rio. A audiência pública teve como objetivo para traçar um quadro da perseguição política a religiosos que tiveram militância política contra a ditadura militar.

Durante o depoimento ele recordou a resistência da Diocese de Nova Iguaçu durante a ditadura, lembrando Dom Adriano Hypólito que por defender os direitos humanos foi sequestrado, torturado e largado nu pintado de vermelho na praça, destacou também padre Agostinho Pretto que foi preso e torturado em favor dos trabalhadores e trabalhadoras, veio para o Rio de Janeiro e não foi acolhido por Dom Eugenio Salles por causa da ditadura militar, mas foi acolhido por Dom Adriano, e amigo do Pe. Geraldo.

O corpo do padre Geraldo foi velado na Catedral de Santo Antônio com a presença de fies e do clero não só da Diocese de Nova Iguaçu, mas de todo estado do Rio de Janeiro, nas exéquias presidida por Dom Luciano Bergamin ele lembrou que ele gostava de rezar e “tinha espirito de oração, não só com ´palavras” e recordou a música preferida do Padre Geraldo, um mantra que ele entoava “Deus é amor, arrisquemos viver por amor, Deus é amor, ele afasta o medo. ”

Nota de pesar da Comissão Pastoral da Terra (CPT): 

A luta pela terra é um direito sagrado, proclamava o Padre Geraldo Lima

“Pessoa feliz! Com escolha e a caminhada realizada. Vocês revelaram para mim como a celebração da morte e ressurreição de Jesus é fonte de Alegria, Paz e Libertação. Por tudo isso, obrigado Senhor”, agradeceu, em 2014, Padre Geraldo Lima, quando acabara de completar 50 anos de vida sacerdotal. No último sábado, 07 de julho, com 80 anos de vida, o nosso companheiro de lutas e missão fez sua Páscoa.

Há quatro anos, quando Geraldo escreveu essa mensagem em uma rede social, certamente estava grato por ter atuado e vivido junto aos povos da América Latina, da Amazônia brasileira, e da região Sudeste do Brasil, especificamente no Rio de Janeiro. Neste estado, ele apoiou e esteve junto às primeiras famílias que buscavam um pedaço de chão, e assim permaneceu firme na luta até os dias de hoje. Com estudantes e movimentos populares, lutou lado a lado em ocupações, assim como com os irmãos e as irmãs camponeses, indígenas e quilombolas.

Na Comissão Pastoral da Terra (CPT) no Rio de Janeiro, sua presença sempre foi de um companheiro fiel e fraterno, de intensa espiritualidade, que sempre alertava para o compromisso com os mais sofridos e que, mesmo diante dos desafios, a CPT precisa continuar sendo um sinal de vida e esperança. Padre Geraldo se fez profeta da Baixada no ventre dos trabalhadores e trabalhadoras rurais. Ele se constituiu enquanto CPT por entender que a luta pela terra é um direito sagrado. Para a CPT em Nova Iguaçu (RJ), Padre Geraldo foi um provocador da Igreja para que ela seja de fato uma referência de um Deus que se revela como amigo, irmão, pai e mãe, um Deus das bem-aventuranças.

“Sentiremos sua falta Padre Geraldo. Sentiremos falta do amanhecer em nossas ocupações, quando você, querido companheiro, nos fortalecia com sua mística matinal”, destacou, em Nota de Pesar, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Fortes palavras que traduzem uma vida dedicada ao povo. Não diferente de outras localidades pelas quais o religioso passou, o Rio de Janeiro é marcado por conflitos violentos, seja no campo ou na cidade. E em realidades como essas, de situações extremas de violências e violações de direitos, a fé, o profetismo e o ombro sempre amigo de Geraldo sanaram e evitaram muitas dores.

A cerca de duas semanas, no dia 29 de junho, Padre Geraldo completou 54 anos de vida sacerdotal. Entrou para o Seminário Diocesano de Petrópolis no dia 22 de março de 1949, e foi ordenado por Dom Cintra em 29 de junho de 1964. Em 2014, na véspera de seus 50 anos de vida religiosa, Geraldo manifestou, em carta, que iniciaria um ano sabático. Nesse período, visitaria e celebraria nas paróquias e comunidades que trabalhou ao longo dessas cinco décadas, como a Prelazia de Altamira (PA), a Diocese de São Gabriel da Cachoeira (RO) e San Carlos, na Nicarágua. “Quero passar um mês por estes lugares, celebrando e vivendo com a igreja o ministério da evangelização, morte e ressurreição do Senhor”, disse ele à época.

Amigo Geraldo, obrigado por ter combatido o bom combate, por ter guardado a fé e ter sido uma testemunha viva da presença de Jesus nesse mundo.

Padre Geraldo Lima Vive!

Goiânia, 09 de julho de 2018.

Coordenação Executiva Nacional da Comissão Pastoral da Terra

Nota de pesar do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra:

É com profundo pesar que nós, MST do estado do Rio de Janeiro, recebemos hoje a triste notícia do falecimento do Padre Geraldo Lima.

Padre Geraldo foi além de um companheiro da luta pela terra no estado, um aguerrido pastor da fé missionária em defesa dos direitos humanos. Sempre usou de seu papel na religião para estar ao lado dos pobres e excluídos desta sociedade.

Padre Geraldo foi um exemplo de ser humano, de trabalhador, de cristão comprometido com as lutas sociais, com a transformação desta sociedade capitalista. Sua partida não só nos fará falta, mais deixará um vazio na luta por uma fé articulada a política. Padre Geraldo esteve conosco desde as primeiras ocupações de terra, atuando ativamente na baixada fluminense junto dos camponeses expropriados da terra.

Quem teve oportunidade de conviver com Padre Geraldo sabe do seu amor pela terra, sua dedicação àqueles que igual a ele, compreendem a riqueza da vida e da natureza, geradora do alimento. Sua atuação na Comissão Pastoral da Terra sempre trouxe em evidência a questão agrária do estado e a visibilização das populações camponesas, indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.

Sentiremos sua falta Padre Geraldo. Sentiremos falta do amanhecer em nossas ocupações, quando você, querido companheiro, nos fortalecia com sua mística matinal. Orações realizadas em agradecimento à mãe terra, que sempre nos acolhe, todos em círculo e mãos dadas, como irmãs e irmãos na fé da conquista do pedaço de chão, na fé da justiça ainda que tardia, na fé de que só a luta muda nossas vidas.

Suas orações eram construídas com a linguagem do povo sem-terra, com a beleza da simplicidade dos que com sabedoria apreciam esse espetáculo que é a própria vida, desfolhando-se permanentemente em mais vida.

É uma grande perda diante de um mundo tão marcado de ódio e intolerância, vai-se um grande companheiro que tinha a mesma certeza, tal qual o poeta Carlos Drummond de Andrade, que o mundo é grande, mas o “coração também pode crescer. Entre o amor e o fogo, entre a vida e o fogo” e bradava: – Ó vida futura! Nós te criaremos!

Padre Geraldo, sabemos que seu legado permanecerá vivo em todos que acreditam no papel do ser humano na transformação da vida, na luta pela emancipação, na construção de um mundo justo e fraterno!

Padre Geraldo, Presente, Presente, Presente! Hoje e Sempre!

Direção Estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra do Rio de Janeiro

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João Oscar

João Oscar é jornalista militante de direitos humanos da Baixada e colaborador da ComCausa